Além de João Lourenço, entraram neste projeto mais oito entidades, algumas representando-se a si mesmas ou empresas, como é o caso de José Estêvão Daniel, atual administrador da empresa angolana Refriango.
Nesse mesmo dia, o governo angolano aprovou uma segunda Resolução n.º 70/09, outro projeto de investimento privado denominado Sociedade Vidreira de Angola, S.A., no valor global de USD 60.600.275,00, que visava a construção e funcionamento de uma unidade fabril de produção de vidro-embalagens na província do Bengo. O projeto é detido pelas mesmas entidades, sendo que João Lourenço voltou a participar através de sua empresa familiar JALC — Consultores e Prestação de Serviços.
Na época desse negócio, João Lourenço ocupava o cargo de Vice-Presidente da Assembleia Nacional, e Dino Matross, então Secretário-Geral do MPLA, era igualmente membro do parlamento. Um relatório do Maka Angola chamava atenção ao facto de que ambos teriam violado a lei, visto que parlamentares não podem se envolver em negócios privados.
Do ponto de vista legal, a Lei Orgânica do Estatuto dos Deputados estabelece, no Artigo 20.º (C), sobre impedimentos, que o deputado não pode “participar em concurso público de fornecimento de bens e serviços ou em contratos com o Estado e outras entidades coletivas de direito público, salvo os direitos definidos pela Lei dos Direitos do Autor”, conforme notou o Maka Angola, de Rafael Marques de Morais.
Ainda segundo o Maka Angola, tanto o então Secretário-Geral do MPLA, Julião Mateus Paulo “Dino Matross”, como o então Vice-Presidente da Assembleia Nacional, João Lourenço, celebraram um contrato com o Estado, violando a lei que rege a sua conduta como deputados.
Desde que assumiu a presidência de Angola, em 2017, João Lourenço tem se destacado por ter desencadeado combate contra a corrupção, uma mudança notável, considerando o seu passado como notável membro do regime anterior, frequentemente acusado de práticas corruptas. Essa transformação de Lourenço tem sido atribuída a vários fatores, como a pressão internacional que Angola enfrentava para melhorar sua governança e atrair investimentos estrangeiros, tornando o combate à corrupção uma prioridade.
A luta contra a corrupção também é vista como tendo servido para enfraquecer rivais políticos ligados ao antigo regime, consolidando o poder de Lourenço dentro do MPLA e do governo. Lourenço implementou várias reformas para melhorar a governança e a economia, incluindo a substituição de altos funcionários e a criação de novas leis contra a corrupção.
Apesar das iniciativas do governo, a corrupção continua a ser um problema generalizado em muitos setores em Angola, dividindo opiniões. Críticos apontam que, embora haja esforços para combater a corrupção, a falta de transparência e prestação de contas continuam a ser grandes obstáculos. Muitas vezes, as investigações e processos judiciais não são conduzidos de maneira transparente. O próprio poder judicial é liderado por um juiz, Joel Leonardo, que está a ser investigado por corrupção.


